sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Palavra mal calada

Palavra desgasta(da) minha pele
Voou e e nem sequer deixou
O débil toque, acostumado
D'amor, da dor do peito.

Mandou um beijo e s'entregou
Ao tédio, ao ébrio, o cego.
Desusada, descuidada, palavra      
Que o silêncio enforcou e (a)pagou.

E riscou no frio da vida
No fim da ponte amarga
Gosto vazio da palavra seca
Engasgada no (seu) último passo

Passos que ainda soam apressados
Despregados do apreço inútil
Inválida saudade, interrompida,
S'esvaiu no ousar da ponte.

Palavra desgraça(da) minha dor
Perdida, imunda no mundo.
Infinito pesar do amar
Acabou-se num sono profundo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

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Eu, antes, era pedra.
Amei.
Virei pássaro.
Voei.
Depois, era sol
Me queimei
Era cinza

Eu era vento
Fugia.
Era chuva e
Passava.
Voltava.
E era (só) frio.

Eu era o silêncio
Confusão
Solidão
Era a busca frustrada
Perdição.
Caminho sem volta.

Eterna mudança.
Esperança?
Conflito
Aflito.
Era tudo sonho

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Passagem

Os dias tem de serem iguais
Assim como as pessoas que passam
E você não vê
Assim como aqueles olhares
que você não vê.
Aqueles sorrisos
que você finge
e não vê.

Os dias são sempre os mesmos
Estão acostumados a
Aquele velho ir e vir
Velho hábito
que você já não espera mais nada.
Aquela vida que passa
e você não vê.

E você não (me) vê mais
Nada.
E você (me) perde.
Eu passei...
E você me deixou passar.
(por que você me deixou passar?)

Eu já não sou mais.
Eu fui, sem (te) esperar.
Fugi dos meus dias que
não são mais tão iguais.
Fugi, fugi da vida.
E fugi de você
que não (me) deixou ficar.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Verso da folha

Atrás, outro poema confuso
Palavras que desconfio que sejam minhas
A letra parece ser a mesma
E percebo que meus sentimentos são como esses anos
que esqueço ter vivido
Mas minhas olheiras me provam que faltam-me noites bem dormidas
Sobram-me insônias como se eu tivesse mesmo uma vida para cuidar

Talvez eu tenha me esforçado
Tendo noites em claro, em silêncio, em vão...
Tentando esquecer, tentando saber, ou só tentando sonhar...

É sem saber quanto tempo passou
Se alguma coisa mesmo (não) mudou
Que me encontro de novo me perdendo em palavras vazias
Agora, mais vazias do que já ousaram ser
Agora, com a sensação de ter perdido algo
(sem saber talvez o que possa ser)
Aceitando que o vazio preencha qualquer sinal de movimento

Agora, admitindo ser inconstante
e mais errada do que eu achava que seria
mais covarde do que eu sequer pensaria que fosse
Sem a certeza de partir outra vez
Ou ficar aqui de uma vez.

Sem forças, agora, para esquecer a vontade de fugir
Ou conter o desejo de gritar
(Será que eu deveria gritar?)
Ah, eu não quero, eu nem sei
Eu nem sei mais pensar
Talvez eu só deveria
Esperar a canção acabar...

domingo, 4 de maio de 2014

Eu sei, esse vento e esse lugar
Não são mais meus.
Estou aqui, distante.
Estou aqui, tentando estar.
Mas é um lugar que não posso mais chegar

Esse vento e esse lugar,
E a tua lembrança
Que já não sai de mim
Eu fujo tentando estar
Em qualquer lugar que eu não possa lembrar.

Mas essas lembranças
Esse tempo
E essa vida perdida
Fazem-me querer gritar,
um grito mudo.

E esse vento e esse lugar
Essas lembranças e eu...
E qualquer coisa fora do lugar
Qualquer bebida escondida embaixo da cama
Qualquer lágrima presa no aperto do peito
Eu, aqui, esse vento...
Nesse lugar.

terça-feira, 11 de março de 2014

Cotidiano

Depois de uma noite, bem ou mal dormida...
Depois de acordar e logo sentir o peso do dia,
de tirar disposição para levantar
(não sei de onde, talvez do hábito).

Depois de pegar o carro ou o ônibus,
andar na chuva ou no sol,
ter tomado um café bom ou ruim,
ter visto pessoas agradáveis ou desagradáveis...

Com os velhos, ou os novos problemas na cabeça...
Com medo da prova de amanhã,
com medo da filha internada,
com saudade dos pais,
com a ansiedade da nova viagem,
com as lembranças da noite perfeita...

Eu não sei como você está, nem o que você pensa.
Eu não tenho tempo para isso e nem me interessa.
Eu já te conheço o suficiente.
E eu não espero nada de você.

Ah não ser seu olhar, talvez seu sorriso
(que se eu soubesse como despertá-lo...
eu certamente o faria)
Eu só espero você passar
E ao te ver passar ninguém mais te deseja um belo dia do que eu.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Metrópole

A altura dos prédios rouba minha visão
Os carros todos me prendem
E eu não me mexo, nem me enxergo
Quem sou eu aqui?

Que lugar é esse, cheio de fumaça
De pessoas e movimentos
De passos que eu não consigo acompanhar
De céu sem cores e árvores perdidas, esquecidas

Que lugar é esse, de tanto excesso
Cheio de olhares atentos e cansados
Olhares que não correspondem sorrisos
E onde está o sorriso?

Que pessoas são essas que eu nunca vi
Que vivem para o trabalho
Que correm para não perder o ônibus
Correm para não perder tempo
Correm para não perder dinheiro
Correm para (não) perder a vida

Será que alguém consegue me ver aqui?
Não, não há tempo para isso.
Ah, eu preciso ir embora
Antes que eu precise correr para viver